sábado, 28 de fevereiro de 2009

Quem são os Agentes da Investigação Criminal



Cartas ao Amigo Macamo II

Caro Amigo e Irmão

Mano, depois de termos conversado sobre os traidores e os heróis desta pátria, embora sem termos esgotado o assunto e, porque a actualidade exige um pouco mais de nós, devo escrever-te sobre os agentes da investigação criminal, vulgarmente conhecidos por agentes da PIC. Quem são eles e a quem servem.

Penso que a investigação criminal constitui uma das mais privilegiadas áreas da polícia, pelo menos, por dois motivos: é uma policia especial, que trabalha a paisana e tem um pouco dos mandatos que um procurador tem no estado de Direito.

É, se calhar, por ser tão privilegiada que ao mesmo tempo, constitui o cancro da estratégia ante crime, ante tráfico, ante distúrbios e outros. O ser cancro significa para mim e para ti meu caro amigo, também ser um desafio, porque de todas as maneiras reformas são necessária e essa polícia deve servir os interesses da sociedade.

Imagina meu amigo, a sociedade moçambicana sem uma polícia de investigação criminal eficaz? Infelizmente, em muitas áreas de desenvolvimento deste país, não conseguimos entender a nação na sua dimensão total, ou seja, desde Maputo a Cabo Delgado, ou vice versa e desde Machipanda até Beira, ou como alguns gostam do Zumbo ao Indico.

A maior parte das actuações são realizadas na Cidade e Província de Maputo, ou então nas principais cidades como é o caso da Beira e Nampula. Assim, uma parte da investigação que se pretende seja realmente criminal, só é realizada com efectividade no Maputo e, fora dela, com muita fraqueza.

Imagine por exemplo a dimensão da costa moçambicana, cerca de três mil quilómetros que a olho nu é impossível de enxergar e dimensionar, mas que os criminosos aproveitam de forma mais tranquila e despreocupada, já que até a própria marinha tem dificuldades de estender seu trabalho a 100% em toda a costa.

O resultado é que pescadores ilegais e sabotadores vão enriquecendo. Os traficantes de droga, de armas, de pessoas, vão entrando e saído do país, através do mar, usando seus barcos de alta potência, sem que as autoridades tenham conhecimento.

Mas meu amigo, voltemos a polícia. Os exemplos que dei acima, eram mesmo para que o meu amigo tivesse uma ideia do que são realmente os desafios da nossa jovem nação, fértil para tudo, para o desenvolvimento e para a criminalidade, para a paz e para o medo e dor.

Os agentes da polícia da investigação criminal são cidadãos que o próprio trabalho transformou em monstros. Lembro-me que já conversei contigo, caro amigo, sobre o pacto negativo que o trabalho desses agentes produz neles e para sustentar a conversa baseamo-nos num dos filmes de Al Pacino e Robrt de Niro, com título Righteous Kill lançado em 2008, onde se aborda com rigor, clareza e verdade a ingratidão da tarefa de trabalhar com a criminalidade, tanto para o polícia, bem como para o cidadão.

Mas o caso moçambicano tem suas especificidade meu caro amigo. Se nos Estados Unidos, como retracta o filme e, com certeza muitos outros documentos, a polícia de investigação criminal é seleccionada por via de critérios objectivos e rigorosos, em Moçambique a selecção é subjectiva, chegando mesmo a serem seleccionados cidadãos sem postura e perfil.

É verdade também que a polícia norte americana tem todas as condições para o bom desempenho que eventualmente possa ter, entretanto, a nossa polícia trabalha em péssimas condições. Deve porem ficar claro ao meu amigo que o bom desempenho e a transformação em monstros a que os agentes da investigação criminal se submetem, não tem nada a ver com condições. É o trabalho em si. Tanto cá como nos EUA.

É o trabalho em si que cria o ambiente corporativista, tornando quase nunca investigáveis os próprios agentes, ou seja, eles, os agentes da investigação criminal, dificilmente são punidos ou repreendidos de acordo com as leis em vigor. A corporação pode até, ter os seus critérios disciplinares, mas crimes são crimes, devem ir ao tribunal.

É o trabalho em si que transforma os agentes da polícia criminal ao serviço do próprio crime. Ao serviço do crime organizado que para o caso do nosso país tem tentáculos em todos os cantos imagináveis. Tens razão meu amigo quando questionas os bens ostentados por esses nossos servidores: carros extremamente luxuosos, moradias em bairros nobres, pulseiras e colares de ouro pesado, entre outros. Eu e você sabemos quanto é que se ganha na função pública.

Meu amigo, quem são os agentes da polícia de investigação criminal? Eles são nossos irmãos, vítimas de uma sociedade consumista, ambiciosa e que não valoriza o trabalho digno, o suor e os rendimentos honestos. Esses agentes, são vítimas da fraqueza do judiciário, são vitimas de uma sociedade que ao invés de amar e desejar bem ao polícia, foi ensinada a ter medo dela, a fugir dela, a corrompe-la e a considera-la desactualizada.

Meu amigo, esses agentes são o resultado de uma estratégia desarticulada de combate ao crime. Uma estratégia intimidada pelos tentáculos do poder e da política.

Receio que nesse andar, a integração regional só nos venha a prejudicar, sabendo que ao se integrarem as nações, tudo se integra, tanto de bom como de mal. Ou seja, se as manobras do crime organizado já dominaram uma boa parte da nossa estratégia de combate, pior ainda com a integração.

Mais do que isso meu caro amigo, é que realmente essa estratégia de combate ao crime, deve ser apropriada pelos cidadãos, que não seja só do ministério do interior ou da justiça, mas dos moçambicanos.

Acho que já falei demais meu caro amigo.

2 comentários:

Guanazi disse...

Meu caro amigo,

quando li a tua carta ao amigo Macamo II,veio-me á memória uma frase que retive de Albert Camus, em o "Mito de Sísifo". Diz ele o seguinte:"no dia em que o crime se ornamenta com os despojos da inocência, por uma curiosa deformação que é própria do nosso tempo, é a inocência que se vê intimada a apresentar suas justificativas(...)". Como diria o próprio Camus, este é o absurdo no nosso tempo. Pois não me admira que temamos mais o polícia do que o próprio criminoso, que o polícia honesto seja visto como um bobo vivendo fora da realidade.

Custódio Duma disse...

Guanazi...

Ilustre é esse camus que na plenitude do seu pensamento consegue ser fiel a justica e a razao.

Males do nosso tempo ou nao, o mais importante é a capacidade com que conseguimos ser hipocritas connosco mesmo e sustentarmos um governo inquestionavel.

Te respondo concordando e ao mesmo tempo sabendo que a essencia do ser é a fidelidade, se a qual nao podemos revindicar identidade!

Mas, mais do que maus profissionais, é preciso reflectir nas vítimas da profissao.