domingo, 22 de fevereiro de 2009

Quem São os Traidores, Quem São os Heróis?


Cartas ao Amigo Macamo I
Meu amigo e irmão,

Quando comecei a ler a carta sobre algumas das suas inquietações relacionadas com a verdade na história de Moçambique, veio-me a memória o que alguém já disse, tentando entender a luta contra o terrorismo: “os terroristas de ontem, são os heróis de hoje”. Para confirmar este dito, tenho a citar que pelo menos dois dos chamados terroristas, antes ou depois, chegaram a ganhar um Prémio Nobel da Paz, trata-se aqui de Nelson Mandela (1993) e Yasser Arafat (1994).
Querido amigo,

Esta reflexão, levou-me a concluir, embora precipitadamente, que, a verdade e a política não podem caminhar de forma paralela. Elas discordam em muitos momentos e por vezes se contradizem, mesmo que seja em momentos diferentes. É que a verdade não se importa com o poder, enquanto que a política, ela tem como objectivo alcançar o poder e manter-se nele. A verdade já é um poder em si.

Seria portanto, pedir demais, que os que hoje controlam o poder moçambicano escrevam a verdadeira história deste país nos seus fies moldes. Para que fim seria? Sei que há um dever de deixar os cidadãos devidamente esclarecidos sobre todos os pilares que sustentam o nosso grande e belo país, mas isso não abonaria para a manutenção do poder. Os efeitos no eleitorado seriam drásticos e os políticos não sobreviveriam a etapa seguinte.

Entretanto, meu caro amigo, não quero dizer que os nossos políticos devem engrandecer o seu discurso e os seus actos no pensamento maquiavélico de “O Príncipe”. Seria muito bom que eles fossem coerentes. Mas quero aqui trazer a diferença do nosso pensamento e o deles, a diferença do meu pensamento, que em muito concorda com o teu e o deles que em muito concorda com aqueles que eu chamo de bajuladores e hipócritas.

Posso afirmar que é a luta do ser e o do dever ser. Sei que mais do que posso escrever, você sabe melhor desta matéria, afinal, és tu o filósofo mor e eu teu humilde admirador. Na verdade o que escrevemos e debatemos enquadra-se no dever ser, mas o que eles dizem e fazem enquadra-se no ser. Nós pensamos e reflectimos na essência das coisas e eles actuam no periférico. Nós buscamos o fim último da existência humana em sociedade e eles buscam a realização material e aparente dos homens.

Sem querer mostrar um certo comodismo, conformismo ou mesmo capitulação, acredito ser desnecessário exigir que alguém, actual, político e hoje no poder reescreva alguns capítulos ou mesmo parágrafos da nossa nobre história. E se esse alguém, aceitasse escrever, a tal história já estaria maliciosamente escrita, porque as bases, ou as premissas, estariam desde logo viciadas.
Querido amigo,

O meu argumento não desencoraja ninguém a filiar-se em partido político, nem a escolher uma cor partidária. Eu conheço a tua cor partidária, embora não estejas filiado. Creio que também sabes que tenho simpatias por alguns políticos, mas escolhi não ser membro por razoes óbvias. Essencialmente, quero dizer que o nosso jeito de pensar e viver, mais conformado com a essência das coisas e não com a aparência, não nos proíbe de ser partidários ou políticos, porque políticos diferentes e partidos diferentes também são possíveis.

Tenho uma lista enorme de políticos africanos, latinos, americanos, europeus e outros, que sendo políticos, recusaram-se a ser maquiavélicos, recusaram-se a ser hipócritas, recusaram a corrupção e todos os outros vícios que perseguem a história da luta pelo poder e pela sua manutenção e preferiram servir a humanidade. Esses políticos, transcendem a dimensão temporal, espacial, mesquinho e carnal com que estamos acostumados a ver, ouvir e ter ao nosso redor.

A tua preocupação, meu caro amigo, pode ter efeitos positivos ou negativos. Podem ser negativos quando por ela chegares a conclusão de que a história não pode ser mudada, porque, na hipótese de trocarmos o governo, as mentiras e a falsidade continuarão. Sempre foi assim e a nossa pouca experiência de vida já provou que cada governante procura sujar o anterior e escrever as coisas a seu favor. Logo, não seria solução mudar os governos. Mais do que mudar os governos precisamos mudar as mentalidades e os pensamentos políticos que nos orientam. Então, o meu caro amigo, se dedicaria a cuidar somente do seu trabalho, da sua família e da sua quinta.

Mas pode ter efeitos positivos. E aqui, significa que o caro amigo descobre que eu e você temos afinal uma grande missão na construção da nossa história. Mesmo que seja por um único paragrafo, podemos sim introduzir um novo capitulo na história de Moçambique e isso significa que a preocupação e a inquietação, nos conduzem a uma revolta positiva e a indignação, esta leva-nos a acção.

Meu amigo e irmão, os heróis de hoje poderão ser os vilões de amanhã e os vilões de hoje os heróis de amanhã, assim como muitos terroristas viraram nóbeis da paz e nóbeis da paz viraram terroristas. O meu músico predilecto gosta de dizer que Jesus era Cristão e os Cristão o Crucificaram, sete dias depois de o terem glorificado como o Messias que haveria de vir. Isso amigo Macamo, acontece porque os governos e os políticos são guiados por uma ordem política e económica fora do meu e do teu controle.

Falaste de muitas personalidades moçambicanas e também do Dr. Domingos Arouca. Aprecio a admiração e o carinho que nutres por essa ilustre figura. Em Moçambique, o primeiro advogado negro. Eu olho para ele como o pai moçambicano da profissão que escolhemos, entretanto, mais do que as nossas escolhas, ou as escolhas da verdade, falam mais alto as escolhas de quem tem o poder. Digo poder!

Tu me conheces amigo Macamo, não sei responder as tuas muitas perguntas. Sei somente que na tua inquestionável inteligência, consegues sempre perceber onde é que procurei chegar.

Ao finalizar esta carta, amigo, quero deixar o dito do Nana Coyote, dos Stimela: “who is fooling who? I am folling you, are you fooling me?”. Nessa coisa da busca da verdade, o esperto pensa que está a avançar e se esquece que no fim a verdade sempre vem ao de cima. Porque a verdade liberta, ela sempre acaba por chegar, seja por forma de gafe, de insulto, de ironia, de segredo, de desabafo, de denúncia, de confissão e até mesmo de mentira, ela sempre chegará, porque eu e você não viveremos eternamente e enquanto vivos não queremos ser os símbolos da inquietação e da indignação.

3 comentários:

MANUEL DE ARAÚJO disse...

Parabens irmao! Um artigo equilibrado, pedagogico e sem insinuacoes ou arranhoes! Assim e que e debater irmao!

Forca! Ate breve,

Um abraco de Berlin,
MA

Custódio Duma disse...

Mano,

Obrigado pelo seu comentário. Na verdade hega uma altura em que reflectir sobre determinados assuntos passa a ser uma tarefa complicada e para tal, nada melhor que simplificar a linguagem para que exploremos o que muitos nao querem dizer..

Até breve mano

Custódio Duma disse...

Mano,

Obrigado pelo seu comentário. Na verdade hega uma altura em que reflectir sobre determinados assuntos passa a ser uma tarefa complicada e para tal, nada melhor que simplificar a linguagem para que exploremos o que muitos nao querem dizer..

Até breve mano