quarta-feira, 20 de junho de 2012

A Propaganda Política, os Papagaios, os Fantasmas e a Manipulação da Opinião Pública


Parte 1

As manifestações populares de 5 de Fevereiro de 2008 influenciaram o comportamento dos principais partidos políticos moçambicanos no que tem a ver com o seu modus operandina abordagem da opinião pública. A caminhada para as Eleições Autárquicas desse mesmo ano e as Eleições Gerais de 2009 viriam de alguma forma a ser o palco de teste de novas metodologias na abordagem dos manifestos e na angariação das massas.

Os manifestados populares de 5 de Fevereiro, teriam sido convocadas por via de sms distribuídas por celular. Nessa época, as duas principais companhias de telefonia móvel estavam a competir na distribuição gratuita de SMS Short MessageService” (Serviço de mensagens Curtas), o que de certa forma “facilitou e financiou” toda a estratégia das manifestações e que olhando para as consequências, teriam surtido o efeito dos seus promotores.

O MISA Moçambique e o Centro de Integridade Pública, emitiram dias depois, um comunicado de imprensa repudiando a forma pujante com que o Governo controlou os órgãos de comunicação social públicos e privados. A censura da transmissão de imagens pelas principais televisões teve início por volta das 9 horas do dia 5 de Fevereiro, quando a STV deixou de mostrar as imagens das manifestações e começou a passar uma novela e a TVM passou a transmitir reportagens sobre o CAN. Nas horas seguintes nenhuma outra imagem sobre as manifestações teria sido passada e nas notícias da noite, somente alguns trechos foram repetidos pela STV.

Fontes em contacto com o MISA e com o CIP confirmaram que os responsáveis pelas emissões na TVM e na STV teriam recebido “ordens superiores” para vigiar “conteúdos noticiosos subversivos”. Os repórteres da Rádio Moçambique “que se encontravam em vários pontos das cidades de Maputo e Matola foram obrigados a interromper as reportagens em directo”. O Jornalista Emílio Manhique teria convidado no dia seguinte as manifestações, o sociólogo Carlos Serra ao seu programa “Café da Manhã”, Serra recebeu informações que o programa teria sido cancelado e, no dia do programa passou na RM um outro sobre o HIV e SIDA.

A nível dos blogs, das páginas da internet e nalguns grupos de e-mails, um pequeno exército de “papagaios” foi criado para inverter a verdade dos factos e rotularem de oportunistas, vândalos, subversivos, apóstolos da desgraça e desordeiro todos os manifestantes. Nesses grupos chegou-se a afirmar que as manifestações teriam sido convocadas por “mão externa”.

O mesmo exército de “analistas papagaios”, foi criando e difundindo mensagens ridicularizantes contra analistas que não se tinham alinhado ao pensamento que pretendeu calar a mídia e o discurso dos manifestantes. Para quem não sabe o que significa “analista papagaio” deixo ficar um conceito elucidativo: “é analista papagaio, aquele que deliberadamente aliena sua consciência para dar lugar a uma repetição em série, de ideias preconcebidas e orientadas a partir de uma determinada sede com vista a ridicularizar e descredibilizar a pessoa e a mensagem dos seus opositores, assim como para manipular a opinião pública. A repetição em série das ideias orientadas, acontece usando como recurso os canais televisivos, as rádios, as redes sociais, os blogues, os sites e outros meios de comunicação social.”

Facto curioso é que nas vésperas dasEleições Autárquicas acontecidas em Outubro de 2008, as várias redacções das TVs e Rádios começaram a receber listas de quem devia ser convidado como comentador e quem não devia ser convidado. Foi assim que surgiu uma nova rede de comentadores jovens, sendo muitos deles os tais analistas papagaios acima descritos. De onde vinham as listas? Elas vinham das principais sedes partidárias e gabinetes de alguns ministros.

Assim foi feito o debate pós 5 de Fevereiro, assim foi feito o debate da pré campanha nas Eleições Autárquicas de 2008 e assim foi preparada a précampanha, a campanha e o debate eleitoral de 2009. Afinal tudo tinha a ver com o poder. Era preciso controlar a informação que era veiculada no país, era necessário saber quem a difundia, de onde a difundia e quais eram os interesses que orientavam essas informações. Aqui começou a formar-se uma nova forma de estar no que tem a ver com a política. Inventaram-se novas formas de propaganda e foram gerados os analistas fantasmas.

Os analistas fantasmas viriam a ser uma reprodução infinita dos analistas papagaios. Deixe-me construir o conceito de um analista fantasma: “o analista fantasma é aquele que, sendo reprodução do analista papagaio, ou reprodução de um outro analista fantasma e, embora com a mente alienada, somente existe no mundo virtual e emite mensagens e informações com a mesma finalidade do analista papagaio. Contudo, nem sempre o analista fantasma é alinhado ao papagaio, na verdade, ele também pretende dar ao público a percepção de que existe um palco com diversidade de opinião e diversidade de “opinionmakers”.

Piores que os analistas papagaios, sãos os analistas fantasmas que fisicamente não existem, não possuem ideias próprios, porque não existem e nessa qualidade não podem ser, a olho nu, vistos, contactado ou responsabilizados e por isso, são eles, devastadores, gladiadores, mal criados e seguidores acérrimos dos analistas papagaios, ou seja, acérrimos seguidores de si mesmo, porque na verdade, o analista fantasma é a versão virtual do analista papagaio.

Para acomodar essa nova onda de recrutas (entenda-se dos papagaios), novas vagas foram criadas nas sedes, nos municípios e em algumas direcções, sejam elas municipais, distritais, provinciais ou mesmo nacionais. E para alem de se promoverem os tais recrutas, também se empregaram e difundiram-se com veemência a ideia da recompensa de quem se alinha. Festas familiares e convívios de grupos passaram a servir de palcos de ostentação dos benefícios ganhos nas novas fileiras recrutadas e alinhadas para controlar e manipular a informação e a opinião pública.

Aqui sobressaiu uma nova forma de pensar e fazer a propagada política. A propaganda, um meio, que no passado foi bastante explorada pelo nazismo e pelo comunismo, para criar medo e terror, para criar ódio contra pessoas de crenças e opiniões diferentes, para criar um falso valor de superioridade, de segurança e estabilidade, para lembrar a grandeza e as conquistas do passado e do presente, para rebaixar os inimigos, para divinizar o líder e acima de tudo para manipular a informação e a opinião pública passou a ser o instrumento dos analistas papagaios e principalmente dos analistas fantasmas.

Os analistas fantasmas, repetindo incansavelmente as ideia dos analistas papagaios e sobretudo os objectivos das sedes, atacam osseus contrários, através da criação de bodes expiatórios, desaprovando ideias contrárias, rotulando e ridicularizando os analistas não-alinhados, simplificando a forma de debate, produzindo conceitos vagos e apelando a emoção dos participantes. Com a finalidade de se engrandecerem cada vez mais, os analistas papagaios e os fantasmas usam a técnica do auto elogio e promoção mútua de forma abnegada e chegam a transformar os vários espaços de debate público em puteiro em tempos de orgias.
Continua…

2 comentários:

Reflectindo disse...

Mano, vou seguir esta série que tanto promete. Espero que me permites, vou também reproduzi-la no Reflectindo e no grupo Diálogo sobre Mocambique no Facebook.

Um abraco

Custodio disse...

A vontade meu mano...gostaria também de receber seu comentário sobre a construção que faço. Cordialmente