quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Ausência de Políticas Públicas e a Revolta Social


Sou da opinião que, quando os governantes falham com as políticas públicas os cidadãos tornam-se ingovernáveis e o caos toma conta da polis. Sou da opinião também de que sempre que um governo falha em responder as necessidades básicas dos cidadãos estes não se importam em vandalizar tudo que for possível.
O povo moçambicano foi sempre rotulado de um dos mais pacíficos na terra, ou seja, quase que não reclama de nada. Mas os acontecimentos de ontem, dia 5 de Fevereiro, justamente um dia depois do dia dos heróis nacionais veio a demonstrar que qualquer paciência tem limites.
Bem no final do ano passado o Presidente da República veio ao público sublinhar que o estado da Nação era bom. O mesmo discurso veio depois a ser sustentado pela Primeira Ministra que assegurou que o país está no bom caminho para atingir as Metas do Milénio.
O representante das Nações Unidas em Moçambique sublinhou a mesma fala. Disse em viva voz que o país é um exemplo e que a economia está a crescer de forma exemplar. Anteontem, o Presidente do Banco Mundial reforçou as três falas anteriores.
Enquanto isso, o Relatório da Agência das Nações Unidas para o Desenvolvimento, ilustra uma imagem debilitada de Moçambique. A Integridade Global, organização que monitora o desempenho dos Estados no lado da corrupção dá uma nota muito negativa ao governo de Guebuza. A Fundação Mo Ibrahimo, aquela que congratulou Chissano por boa governação, colocou Moçambique abaixo do Zimbabwe em termos de boa governação.
Há discurso muito diferentes sobre o mesmo aspecto. Pessoalmente tenho sido criticado por afirmar que não pode haver duas verdades para o mesmo facto. Talvez porque levo muito a sério a ideia de verdades absolutas. Não me interessam as verdades relativas.
Moçambique não pode estar a desenvolver-se e, a não desenvolver-se ao mesmo tempo. Não pode ter um franco crescimento económico e ao mesmo tempo ter um dos mais baixos índices de desenvolvimento humanos no mundo. Não pode ter uma governação exemplar tendo ao mesmo tempo índices muito altos de corrupção. Dos que discursam, há quem está a falar a verdade e ha quem está a mentir.
A minha percepção pessoal indica que este país é fraco em termos de políticas públicas. Para começar vou mexer o lado dos transportes. Que política tem o Estado para os transportes públicos? Nenhuma. Quem até hoje se preocupa com os passageiros são privados e não o Estado. Todos os dias, sob todos os riscos, vemos pessoas em pé nas paragens dos vulgos chapas a espera da boa vontade dos chapeiros. Enquanto isso os servidores públicos estão ausentes.
Que políticas públicas existem para a área dos combustíveis? Nenhuma. O Estado nem aventa a hipótese de subsidiar os combustíveis para facilitar a vida dos cidadãos. Cada dia os combustíveis sobem drasticamente e o último cidadão é que acarreta com os custos. Na verdade, os funcionários do Estado, os bem posicionados não pagam o combustível, é tudo pago pelos impostos dos cidadãos.
Que política públicas existem para o desemprego? Nenhuma. Embora o Estado seja o maior empregador, quantas pessoas realmente estão empregadas, e qual o universo dos que não estão. Acima de 60% da população potencialmente trabalhadora não tem emprego e sobrevive graças a biscatos.
Que políticas publicas existem para o salário mínimo. Nenhuma. O salário mínimo ainda não é calculado com base das necessidades básicas das pessoas. O valor é determinado numa mesa e passa a ser assim. Temos o salário mínimo mais baixo da África Austral e mesmo assim há quem afirma que estamos num bom caminho.
Poderia gastar toda a tinta a perguntar de políticas públicas, mas eu sei que elas não existem. Este país vive de improvisos, a maior parte das decisões tomadas são improvisadas e para remediar situações.
Quando uma boa parte dos manifestantes passou em frente do meu escritório, onde bateram em carros incluindo o meu, olhei para cada um deles e vi jovens. Vi crianças e adolescentes. Seres humanos moçambicanos desesperados.
Esses jovens caminhavam para nenhures, olhavam para o vazio e esperavam o nada. Gritavam palavras sem conteúdo e buscavam uma orientação para os seus actos. Mesmo tendo sofrido avultados danos materiais, vi no rosto daqueles concidadãos a imagem do desespero, da miséria e do desgaste.
Onde é que estavam os adultos? Onde é que estavam os mais velhos? E porque é que eram aqueles jovens? De ambos os sexos, todos revoltados? Revoltados contra o que? E contra quem?
Estão revoltados contra o Estado que não cria políticas públicas inclusivas. Os adultos e os velhos já perderam a sensibilidade da indignação. Estão conformados e querem manter o pouco que organizaram ao longo desses duros anos de vida.
Os jovens não. Eles não tem nada a perder, eles querem o seu espaço, querem o seu lugar.
Essa revolta não é só causada pela subida do preço do pão, do combustível e do preço do chapa. Isso só veio pôr combustível na fogueira. Isso só foi o cúmulo de toda a indignação guardada no coração.
Quando faltam políticas públicas participativas e inclusivas o povo tem direito de se revoltar. A revolta social é um direito fundamental, mesmo que a repreensão venha a ser excessiva. É o que acontece no lado das leis, todos têm o direito de não cumprir leis injustas.
Temos um governo que sobrevive graças a ignorância do povo. Temos um governo que se alimenta e se engorda com a mesquinhice da oposição. Temos uma oposição que se esqueceu da sua missão. Temos um país que sobrevive graças a sorte.
Temos intelectuais que não sabem discernir o norte e o sul. Temos um Estado típico, um Estado chamado de direito e mesmo assim sem império da lei nem separação de poderes. Como é que seria possível evitar a revolta social?
Estou convencido que o actual governo de Moçambique veio agravar o fardo dos cidadãos. Subiu o custo de vida mas não melhorou o poder aquisitivo das pessoas. Agravou a violação dos direitos humanos e fragilizou as garantias constitucionais. Impediu a separação de poderes e declarou guerra a Constituição da República.
Nessas condições nenhuma sociedade resiste sem dar a sua palavra. Uma multidão sem pão não precisa de líder. A fome já é um grande líder. Uma população empobrecida não precisa de propaganda. A própria pobreza já é um apelo a revolta.
Não há como impedir que isso aconteça no país enquanto continuamos numa governação mesquinha. O pior ainda está por vir: as próximas eleições terão uma aderência mínima, tal como nunca havia acontecido antes.
E ainda há quem diz que essas pessoas estão a imitar os kenianos, é falso? Esses manifestantes nem televisão tem para ver o que está a acontecer no mundo.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Manifestantes Bateram Vidro do Meu Carro

Os manifestantes que hoje deviam estar nas noticias do dia passaram pela Liga dos Direitos Humanos, bateram em dois carros, machucando a chaparia e danificando os vidros. Um dos carros é o meu! É carro pessoal.

Fiquei pensando: existe alguém que nao entende de políticas publicas, fez alguns cálculos, subiu preço de alguns produtos e serviços e por conta disso eu fiquei vítima.

Por conta disso tenho que comprar um novo vidro para o meu carro.

O povo não é louco. Isto é só um aviso e quem pensa que o que a gente escreve é só para sujar o governo do dia deve por a mao na consciencia e ver que tudo tem seu tempo.

Apesar dos danos que sofri, apoio os manifestantes, o custo de vida está demasiadamente alto!

Sempre

Custo de Vida: um dos pesos na Governação de Guebuza

Espero poder ter tempo para escrever algo mais detalhado e aprofundado sobre o assunto. Mas enquanto não posso faze-lo, deixo desde já a minha opiniao:

Tres anos de Governacao de Guebuza, cinco pesos podem ser indicados como agravos a situação dos moçambicanos:

1. Sistematica violação dos direitos humanos: inseguraça pública generalizada, execuções sumárias e tortura agudizadas pela polícia;

2. Aumento do custo de vida e reduçao da capacidade aqyisitiva: sobe o preço do pão, sobe o preço dos comustíveis, sobem os preços dos transportes e os salários não sobem;

3. Políticas Públicas desajustadas: maior interesse em obter relatórios satisfatorios em termos numéricos e estatísticos e quase nunca na prática, exemplo de alunos da sétima classe em Cuamba que nao sabem ler;

4. Forte atropelos a Constituição da República;

5. Capitulação no Combate a Corrupção.

Ainda sobre a FIR contra a Liberdade de Manifetação!!

Sobre o facto da Força de Intervenção Rápida enviada a impedir uma manifestação não violenta e cheia de paz, organizada pelos Camponeses na Manhiça, sobre o qual escrevi umas pequenas linhas no blog:
http://athiopia.blogspot.com/2008/01/atentado-liberdade-de-manifestao.html

veja o relato de alguem que esteve presente:
http://www.viacampesina.org/main_sp/index.php?option=com_content&task=view&id=441&Itemid=34

O link ao texto foi me enviado por um anónimo, a quem desde já agradeço!

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

8 Policias espancaram um estudante

Quanto Custa ter um Bilhete de Identidade? E um Cartão de Eleitor


Faz tempo que tento reflectir sobre este assunto, contudo, sempre que tento avançar, algo me manda procurar novos elementos. É que mais do que se tratar de um Bilhete de Identidade ou um Cartão de Eleitor, o assunto tem a ver com o exercício de cidadania.
O Bilhete de Identidade, é um documento nacional de identificação dos cidadãos. Para vários efeitos, não é possível realizar operações sem o Bilhete de Identidade. O Cartão de eleitor, é um documento que comprova que o cidadão está inscrito no Secretariado Técnico de Administração Eleitoral e por tanto, está apto para votar e ser votado.
Olhando para as funções e importância de cada um dos documentos, embora os dois visam o exercício de cidadania, é importante realçar que o Bilhete de Identidade tem maior importância para o próprio titular, enquanto que, em verdade, o Cartão de Eleitor é importante para os políticos.
Em Moçambique o voto é livre, ou seja, ninguém é obrigado a ir votar embora seja esse um dever cívico. Do mesmo jeito, ninguém é obrigado a ter um Cartão de Eleitor na medida em que o exercício da votação é um acto livre.
O contrário acontece com o Bilhete de Identidade. Este é um documento de posse obrigatória. Há inclusive casos de cidadãos que são detidos porque não se faziam acompanhar do seu Bilhete de Identidade. É claro que a obrigação não é expressa, mas as necessidades do dia a dia obrigam a ter esse documento.
Estranho é o facto do custo e tempo que se requer para obter cada um desses documentos. Quando se está próximo as eleições, o Estado, através de órgãos criados para o efeito, caso do STAE, Secretariado Técnico de Administração Eleitoral, oferece todas as condições aos cidadãos para que estes se registem e tenham seu cartão de eleitor. Todo o procedimento de recenseamento leva apenas minutos, quase nunca mais de 20 minutos. Sublinhe-se que para este cartão não há custos financeiros a suportar, senão os de ir e vir.
É claro que essas facilidades são realmente de saudar, o preocupaste é que as mesmas condições já não são criadas quando se trata de obter um Bilhete de Identidade.
Para que o cidadão obtenha o seu Bilhete de Identidade, deverá esperar pelo menos um ano inteiro. Para alem de maus serviços oferecidos pelos funcionários públicos nas direcções de identificação civil que muitas vezes confundem sua missão, é necessário que traga uma série de coisas, entre documentos, fotos, dinheiro entre outros.
Olhando para importância de um e de outro, penso que o Estado empenha-se menos onde devia empenhar-se mais, ou seja, o Estado devia criar condições necessárias para que os cidadãos moçambicanos obtenham o Bilhete de Identidade em menos tempo e com menor custo.
Considerando que em Moçambique há pais que não conseguem matricular seus filhos porque estes não possuem um Bilhete de Identidade, considerando que em Moçambique há camponeses que não conseguem abrir uma conta bancária porque não têm um Bilhete de Identidade, considerando que em Moçambique há jovens que são detidos porque não têm Bilhete de Identidade, considerando estes e outros exemplos que poderiam ser citados, é engraçado que neste país seja tão difícil obter um Bilhete de Identidade.
O Cartão de Eleitor, possibilita o cidadão a votar e a ser votado. Na maior parte das vezes possibilita-o mais a votar que a ser votado. Votar significa conceder um pouco da sua soberania a alguém que vai exercer o poder político. O povo, os cidadãos, são o poder constituinte e exercem a soberania através do voto. Os políticos se interessam muito por isso, dai que investem grandemente nos processos de recenseamento eleitoral.
Já que o Bilhete de Identidade possibilita ao cidadão a sua participação na sociedade como sujeito activo, a ideia que fica é, que ele se arranje se puder. É verdade que a cidadania tem e deve ter um custo, mas o Estado devia sim abreviar os encargos do povo moçambicano que já estão demasiadamente sobrecarregados com outros custos, principalmente os referentes aos impostos.
Uma das melhores formas de abreviar esse sofrimento dos cidadãos moçambicanos é oferecer-lhes um Bilhete de Identidade que para alem de dar-lhes a existência legal também os permita votar, os permita pagar impostos, os permita estar no sistema de segurança social, etc.
Não sendo isso possível, porque não oferecer os mesmos serviços do Cartão de Eleitor a quem quer um Bilhete de Identidade? Ao demais, no mínimo o moçambicano requer um Bilhete de Identidade uma vez a cada cinco anos enquanto que as campanhas de recenseamento e sua actualização acontecem pelo mesmos três vezes no período de cinco anos.
Ainda mais, porque as pessoas sabem que aquele cartão só serve para eleições, e a vontade do eleitor moçambicano já é muito reduzida, a contar com as abstenções nas urnas, alias, abstenções no próprio recenseamento e sua actualização.
É que, é mais fácil para o cidadão exercer seu dever cívico, votar por exemplo, quando o governo do dia sabe valorizar sua importância como poder constituinte, através de oferecimento de serviços públicos mais inclusivos e participativos, como é o caso de maiores facilidades para obter um Bilhete de Identidade.
Políticas Públicas constituem estratégias para resolver estes e outros problemas básicos dos cidadãos. É isso que falta em Moçambique, dai que seja mais difícil para um cidadão ter um Bilhete de Identidade que ter um Cartão de Eleitor.
O Estado coloca mesas de recenseamento em todo o país, em todas as províncias, distritos, localidades, postos administrativos, bairros, círculos e até ao ponto mais recôndito, em muitas situações até em tempos chuvosos. O Estado que conhece a importância desse cartão vai ate ao cidadão, faz campanhas, implora, ele tira fotos, importa computadores com geradores, forma técnicos informáticos, unem-se forças do partido no poder com as forças dos partidos na oposição para pedir que os cidadãos possam ir obter o cartão de Eleitor. Isso porque amanhã querem votos.
O Estado já não se empenha para que os mesmos cidadãos tenham um Bilhete de Identidade. Estes podem ser emitidos somente em três locais do país, Maputo, Beira e Nampula. Não há campanhas para Bilhetes de Identidade, nem do governo nem dos partidos políticos, as fotos não são gratuitas e os serviços de identificação civil não vão ao cidadão.
A mensagem passada aos moçambicanos, que acima de 60% vivem abaixo da linha de pobreza é: para tornar-te eleitor, farei todos os possíveis e até os impossíveis, mas para que sejas cidadão com existência legal, faça tu o que puderes.
Obrigado!